Da fábrica ao consultório: o caminho das novas tecnologias até o mercado brasileiro de medicina estética

Antes de chegar aos médicos e pacientes, produtos desenvolvidos no exterior passam por um processo que envolve ciência, regulamentação, educação médica e construção de mercado; executivos especializados atuam nos bastidores dessa conexão

São Paulo — Uma nova tecnologia apresentada em um congresso internacional pode levar meses ou até anos para chegar efetivamente aos consultórios brasileiros.

Entre a descoberta de um produto em países como Coreia do Sul, França ou Estados Unidos e sua introdução no Brasil existe um caminho pouco conhecido fora da indústria: avaliação de mercado, questões regulatórias, análise científica, escolha de parceiros, definição de posicionamento, treinamento de médicos e aproximação com especialistas.

Em um momento em que a medicina estética se torna cada vez mais global, entender esse percurso ajuda também a compreender por que algumas tendências internacionais se transformam em grandes categorias no Brasil enquanto outras desaparecem antes mesmo de conquistar espaço.

Por trás desse movimento existe uma rede formada por fabricantes, pesquisadores, distribuidores, médicos formadores de opinião e profissionais responsáveis por desenvolvimento de mercado.

É nesse último grupo que se encontra o executivo brasileiro Filipe Dilena, que construiu sua carreira acompanhando diferentes etapas desse processo.

Encontrar uma novidade é apenas o primeiro passo

A medicina estética tornou-se um mercado altamente internacionalizado.

Fabricantes asiáticos apresentam tecnologias na Europa. Médicos brasileiros participam de congressos na Coreia. Empresas europeias procuram distribuidores na América Latina. Especialistas de diferentes países compartilham experiências clínicas praticamente em tempo real.

Essa velocidade criou uma falsa impressão de que encontrar uma novidade é suficiente para transformá-la em um lançamento.

Na prática, o processo é muito mais complexo.

Uma tecnologia precisa fazer sentido científico, regulatório e comercial para o país onde pretende entrar.

Também é necessário compreender se existe uma necessidade real entre os médicos, quais produtos já disputam aquele mercado e como a inovação será explicada aos profissionais.

“Encontrar um produto diferente em um congresso é relativamente fácil. O difícil é entender se existe ciência, se existe espaço no mercado e como construir uma estratégia para que o médico compreenda aquela tecnologia”, afirma Filipe Dilena.

O Brasil no radar da indústria internacional

A participação crescente de brasileiros nos principais congressos internacionais de medicina estética reforça a importância do país nesse ecossistema.

Em 2026, por exemplo, o Brasil apareceu como o país com maior representação entre os participantes do AMWC Monaco, um dos principais encontros internacionais da área.

O movimento também pode ser observado na Ásia, especialmente na Coreia do Sul, onde a indústria ligada à dermatologia, dispositivos médicos, injetáveis e tecnologias regenerativas mantém forte presença internacional.

Esse intercâmbio fez com que médicos e executivos brasileiros passassem a ter contato cada vez mais precoce com produtos que ainda estão iniciando sua expansão mundial.

Da Coreia para o Brasil

Filipe Dilena acompanhou de perto essa aproximação.

Com mais de 15 anos de atuação no mercado de medicina estética, o executivo desenvolveu sua carreira em projetos relacionados a lançamentos, posicionamento de marcas, relacionamento com médicos e desenvolvimento de novas categorias.

Mais recentemente, passou a atuar também na conexão entre profissionais brasileiros e a indústria asiática.

Em 2026, foi contratado por uma empresa sul-coreana do setor para coordenar a participação de médicos brasileiros no AMWC Korea.

O trabalho colocou Dilena em uma posição que vem ganhando importância no setor: a de profissional responsável por estabelecer pontes entre quem desenvolve uma tecnologia e quem poderá utilizá-la na prática clínica.

“Quando levamos médicos para conhecer uma indústria ou uma tecnologia na origem, a conversa muda. Eles conseguem fazer perguntas diretamente aos responsáveis pelo desenvolvimento, compreender a proposta e analisar aquilo com uma visão clínica.”

O médico formador de opinião entra antes do lançamento

Essa aproximação explica também o crescimento da importância dos chamados Key Opinion Leaders (KOLs).

São médicos com experiência e reconhecimento em determinadas áreas que participam de discussões científicas, treinamentos, congressos, advisory boards e projetos educacionais.

Em um modelo mais tradicional de lançamento, o especialista poderia conhecer o produto quando a estratégia comercial já estivesse definida.

Hoje, em muitos projetos, essa conversa começa antes.

A prática clínica pode revelar questões que não aparecem em uma apresentação comercial: dificuldades técnicas, possíveis indicações, necessidade de treinamento, diferenças entre perfis de pacientes e dúvidas que provavelmente surgirão quando o produto chegar a outros médicos.

Para Dilena, ouvir esses profissionais é uma das etapas fundamentais do processo.

“Quem está todos os dias atendendo pacientes enxerga a tecnologia de outra forma. A indústria conhece profundamente o produto, mas o médico conhece profundamente a realidade clínica. Um projeto consistente precisa aproximar esses dois conhecimentos.”

Quando é preciso criar uma categoria

O desafio aumenta quando o produto pertence a uma categoria ainda pouco conhecida.

Nesse caso, não basta convencer o mercado de que determinada marca é melhor do que outra.

Primeiro é necessário explicar o próprio conceito.

A medicina estética viveu esse processo em diferentes momentos com bioestimuladores de colágeno, novas toxinas botulínicas, tecnologias baseadas em energia e, mais recentemente, com produtos relacionados à estética regenerativa.

O crescimento de termos como PDRN, polinucleotídeos e exossomos mostra como conceitos inicialmente concentrados em determinados mercados podem rapidamente despertar interesse internacional.

PDRN como estudo de caso

A trajetória profissional de Dilena inclui justamente um período anterior à atual popularização do PDRN.

O executivo participou de projetos relacionados à introdução de um dos primeiros produtos comerciais dessa categoria no mercado brasileiro.

A experiência mostrou que trabalhar com uma categoria emergente exige uma estratégia diferente.

Antes de discutir marca ou preço, é necessário construir conhecimento.

O profissional precisa entender o que é aquela substância, quais são seus mecanismos propostos, quais evidências estão disponíveis, quais aplicações fazem sentido e quais limites precisam ser respeitados.

Somente depois disso começa efetivamente a construção comercial.

Nem toda tendência internacional deve chegar ao Brasil

Existe, porém, outro lado dessa corrida por novidades.

A velocidade com que as tendências circulam nas redes sociais pode gerar pressão para que empresas tragam rapidamente produtos apresentados em outros países.

Mas uma inovação popular na Ásia ou na Europa não necessariamente possui o mesmo contexto regulatório, científico ou comercial no Brasil.

Esse é um dos pontos que profissionais do setor consideram fundamentais na avaliação de novos projetos.

“Uma das funções mais importantes é saber dizer não. Nem tudo que está viralizando representa uma oportunidade consistente. Algumas tecnologias precisam amadurecer, outras precisam de mais evidências e algumas simplesmente não fazem sentido para determinado mercado”, diz Dilena.

Regulação faz parte da estratégia

Existe ainda uma fronteira que nenhuma tendência internacional consegue ultrapassar apenas com marketing: a regulamentação.

Produtos médicos estão sujeitos às regras específicas de cada país.

Uma indicação aceita em determinado mercado pode não existir em outro. Da mesma forma, tecnologias comercializadas no exterior podem necessitar de processos regulatórios antes de serem oferecidas no Brasil.

Isso significa que desenvolvimento de mercado e regulação precisam caminhar próximos.

Também exige cuidado na comunicação com médicos e consumidores, especialmente quando uma tecnologia começa a se tornar conhecida pelas redes sociais antes de sua disponibilidade oficial.

Marketing médico se torna mais técnico

Essa complexidade mudou o próprio perfil dos profissionais que trabalham nos bastidores da indústria.

Marketing deixou de significar apenas publicidade, materiais promocionais e campanhas.

Em mercados especializados, passou a envolver educação, relacionamento científico, análise de concorrência, experiência do médico e construção de posicionamento.

A trajetória de Filipe Dilena acompanhou essa transformação.

Ao longo da carreira, o executivo esteve envolvido em projetos nos segmentos de bioestimuladores, toxinas botulínicas, PDRN, PRP, fios de PDO e medicina regenerativa.

Também participou de estratégias relacionadas a produtos como Elleva e Letybo.

A experiência acumulada em diferentes categorias levou sua atuação para além do lançamento tradicional.

Congressos se tornam locais de prospecção e conhecimento

A presença em eventos internacionais passou a ser outra parte desse trabalho.

Dilena acompanhou médicos e projetos em congressos como IMCAS Paris, AMWC Mônaco, AMWC Dubai, Korea Derma e AMWC Korea.

Esses encontros oferecem uma fotografia do que está acontecendo simultaneamente em diferentes mercados.

Para um executivo responsável por desenvolvimento, observar quais temas ocupam as salas científicas, quais produtos aparecem repetidamente nos estandes e quais discussões despertam interesse entre médicos pode ajudar a identificar movimentos ainda em formação.

Mas também permite distinguir uma tendência científica de um movimento predominantemente comercial.

Ciência e mercado nem sempre caminham na mesma velocidade

Essa distinção tornou-se particularmente importante com a expansão da estética regenerativa.

O interesse por regeneração, qualidade da pele e tratamentos que buscam estimular processos biológicos cresceu significativamente.

Ao mesmo tempo, o nível de evidência disponível não é necessariamente igual para todas as tecnologias apresentadas dentro dessa grande categoria.

Por isso, congressos internacionais vêm abrindo espaço não apenas para apresentar novidades, mas também para discutir evidências, segurança, limitações e controvérsias.

Para a indústria, isso representa uma mudança importante.

Construir uma marca sustentável passa a depender cada vez menos de gerar expectativa rapidamente e cada vez mais de sustentar o posicionamento ao longo do tempo.

Relacionamento como ativo de longo prazo

Nesse ambiente, a rede de relacionamento com especialistas tornou-se um dos ativos mais relevantes para empresas do setor.

Mas Filipe Dilena defende que essa relação precisa ultrapassar a lógica de contratação pontual de um médico para uma palestra ou campanha.

“Relacionamento não se constrói no lançamento. Ele é construído durante anos. Quando existe confiança, o médico se sente confortável inclusive para dizer que não concorda com alguma coisa. Esse tipo de feedback pode ser muito mais valioso para uma empresa do que simplesmente ouvir aquilo que ela gostaria de ouvir.”

Essa visão ajuda a explicar por que profissionais com redes construídas ao longo de anos passaram a ocupar posições estratégicas em projetos de entrada de novas tecnologias.

Os bastidores da próxima tendência

Quando uma nova tecnologia finalmente aparece nos consultórios, grande parte desse trabalho já aconteceu.

Fabricantes foram avaliados. Documentos passaram por análises. Especialistas conheceram o produto. Estratégias foram discutidas. Congressos foram acompanhados. Treinamentos foram estruturados e um posicionamento começou a ser construído.

Para o médico que recebe a primeira apresentação comercial, pode parecer que aquele produto acaba de chegar.

Para quem participou dos bastidores, a história começou muito antes.

A trajetória de Filipe Dilena ajuda a revelar justamente essa parte pouco conhecida da medicina estética.

Depois de mais de 15 anos trabalhando com lançamentos e relacionamento médico, sua atuação passou a incluir também uma conexão cada vez maior com os mercados internacionais onde algumas dessas tecnologias são desenvolvidas.

Em uma indústria na qual uma tendência pode atravessar continentes em poucas horas pelas redes sociais, esse trabalho ganha uma responsabilidade adicional: não apenas descobrir o que poderá ser o próximo grande lançamento, mas entender o que realmente merece chegar ao mercado.

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